SÃO PAULO – Praticamente terminada, a temporada de resultados referentes ao 1º trimestre de 2012 mostrou a fraqueza dos ativos do setor imobiliário, cujas ações dominam a ponta negativa do Ibovespa nos últimos 30 dias - e por comporem 9,80% do índice, colaboram para derrubar o desempenho do principal benchmark do mercado acionário nacional.
Neste cenário, empresas como PDG Realty (PDGR3), MRV Engenharia (MRVE3) e Brookfield (BISA3) mostraram números piores que os do ano passado - ancorados na desaceleração da economia nacional. Outras empresas, como a Gafisa (GFSA3) e Cyrela (CYRE3), tiveram melhora marginal em seus números, mas veem suas ações pressionadas pelo cenário pessimista para o setor imobiliário, que costuma mostrar grande correlação entre seus componentes.
Na avaliação dos analistas do Barclays, problemas estruturais prejudicam o desempenho das construtoras no Brasil - deseconomias em larga escala, produtividade decrescente, entre outros fatores que só deverão ser revertidos em 2013. Confira os resultados das principais imobiliárias:
Após divulgar queda de 79% no lucro líquido entre janeiro e março na segunda-feira (14), a principal imobiliária brasileira deu a tônica para o desempenho do setor. O lucro teve queda de quase R$ 200 milhões entre um ano e outro, atingindo R$ 49,8 milhões, enquanto a receita recuou 2% para R$ 1,476 bilhão. Por sua vez, o Ebitda (geração de caixa operacional) foi de R$ 221,6 milhões, um recuo de 38% na mesma base comparativa. Desta forma, a margem Ebitda (Ebitda/Receita Líquida) ajustada foi de 15%, 8,8 pontos percentuais inferior. De acordo com o presidente da companhia, a expectativa é que as margens líquidas avancem no próximo ano.
A queda no pregão pós-resultado, dia 15 de maio, foi de 9,83%, terminando a R$ 3,67, praticamente seu patamar atual. Contabilizando com a queda também da quarta-feira, os papéis PDGR3 apresentam forte recuo de 40,65% no segundo trimestre do ano. As ações da empresa já apresentavam forte recuo antes do balanço, já que vivia grande stress após a saída de dois diretores, Michel Wurman, antigo diretor vice-presidente e de relações com investidores e Frederico Marinho Carneiro da Cunha, ex-diretor de investimentos e planejamento gerencia. A companhia afirmou pretender trocar de presidente no segundo semestre.
Embora a queda do lucro, de "apenas" 23,9%, não tenha sido tão grande quanto de outras imobiliárias, a MRV foi a que apresentou pior desempenho no pregão seguinte à divulgação, também no dia 14 - recuando 15,04% no dia 15 de maio. O resultado da companhia chamou a atenção pela forte queda da margem Ebitda em 6,1 p.p., atingindo os 19%, enquanto o Ebitda caiu 33,4%. "O resultado da MRV ficou abaixo das nossas expectativas e do mercado", avaliaram os analistas Leonardo Zanfelício e Karina Freitas, da Concórdia. Mesmo assim, permaneceu acima de todas as outras imobiliárias no universo de cobertura da corretora.
Ao explicar a situação, Rubens Menin, diretor-presidente da companhia, destacou que os primeiros meses do ano foram marcados por efeitos sazonais como o menor número de dias úteis, férias de verão, carnaval e período de chuvas. A perspectiva continua positiva para a empresa, que já viu suas ações recuarem 24,79% em abril e maio.
"Esperamos que a companhia volte a registrar resultados melhores nos próximos trimestres, e que a demanda por imóveis elegíveis no programa Minha Casa Minha Vida sofra menos com os impactos negativos da desaceleração da economia no País", afirmam os analistas da Concórdia.
Uma sessão antes da MRV recuar 15,04%, BISA3, ações da Brookfield, despencaram 14,87%. Os resultados da companhia mostraram um cenário ainda pior do que a construtora mineira: o lucro caiu 94% e o Ebitda recuou 46% quando comparados com o mesmo período de 2011. Os números da companhia desapontaram até a própria direção, que destacou estar revendo custos.
"A companhia apresentou números muito abaixos do esperado, surpreendendo negativamente com estourous de orçamento de obras", afirmou a Ativa Corretora. Além disso, o endividamento da companhia cresceu no trimestre e o número de lançamentos foi 18,5% menor do que entre janeiro e março de 2011. Com isso, os papéis da incorporadora recuam 31,37% somente no segundo trimestre de 2012.
Depois de registrar um prejuízo líquido de R$ 1 bilhão entre outubro e dezembro de 2011, a Gafisa era a construtora em destaque nesta temporada de resultados. Os números da companhia mostraram melhora significativa, e a empresa conseguiu reduzir seu prejuízo para "apenas" R$ 31,51 milhões, com forte crescimento do Ebitda e da margem Ebitda. Isso permitiu que as ações da empresa, GFSA3, respirassem um pouco no pregão pós-resultado, subindo 0,26%.
Contudo, isso foi apenas um momento de calmaria dentro de uma tempestade feroz: desde o fim de março, as ações já recuaram 25,12%. Assim, terminaram a última quarta-feira no seu menor fechamento histórico, abaixo até do que havia sido visto no auge da crise de 2008. "O resultado da Gafisa é marginalmente positivo e chamamos atenção para seus papéis, que podem estar se preparando para um processo de retomada", afirma a XP Investimentos.
Essa retomada, porém, pode vir a ocorrer apenas em 2013, embora a companhia acredite na possibilidade da recuperação gradual de margens operacionais em 2012.
A queda no lucro de 43,8%, levando-o para R$ 43,8 milhões, foi apenas mais um evento negativo na companhia, que uma semana antes da divulgação do balanço, no dia 14 de maio, já havia liderado as perdas do Ibovespa. O mercado, porém, não poupou os papéis RSID3 no pregão pós-resultados: a queda foi 7,88%, no mesmo pregão em que PDG e MRV também viam seu valor de mercado cair forte.
A empresa é uma das construtoras que mais sofrem no segundo trimestre, com recuo de 38,99% em seus papéis. Além disso, as ações da empresa sofrem com a retirada do índice MSCI (Morgan Stanley Capital International), importante balizador de tomada de decisão de muitos investidores estrangeiros, bastante significativos para a bolsa brasileira. O endividamento da companhia é um datores de preocupação, entre o primeiro trimestre de 2011 e 2012, ela cresceu 66,8%, enquanto o crescimento do Ebitda foi de apenas 11,1%.
Uma das construtoras componentes do Ibovespa, porém, destoou-se da média: foi o caso da Cyrela, cujo resultado mostrou um avanço de 58,9% no lucro durante o primeiro trimestre, atingindo os R$ 118 milhões. Contudo, no pregão pós-divulgação, as ações da companhia recuaram 0,84%, impulsionadas pelo desempenho setorial naquela mesma sessão - o fatídico dia 15 de maio.
No trimestre, porém, sua história junta-se a demais, embora de forma mais suave: queda de 9,27% frente o último pregão de abril. O resultado dá pistas da razão. "O resultado da Cyrela foi positivo, principalmente pela recuperação da rentabilidade dos projetos e a manutenção da dívida líquida, que trazem uma perspectiva favorável para o desempenho da empresa no curto e no médio prazos", afirma Wesley Bernabé, analista do setor imobiliário do BB Investimentos.
Entre as imobiliárias cujos papéis não fazem parte do Ibovespa, a tendência não foi muito diferente. A Even registrou lucro 10% menor no primeiro trimestre do ano, atingindo R$ 54,364 milhões entre janeiro e março de 2011. Por sua vez, o Ebitda cresceu 19%, atingindo 101,833 milhões. Além disso, a companhia teve crescimento de 28,2% na sua dívida, que chegou aos R$ 885,1 milhões.
Nesse cenário, a XP Investimentos considerou a companhia como um "porto seguro" dentre as imobiliárias, considerando marginal a possibilidade de estouro de obras relevantes, como ocorreu com boa parte das empresas do setor. Isso é fruto da sua política interna - a empresa é responsável por 95% de suas construções, o que a permite constrolar os custos com maior facilidade. A empresa registrou alta de 0,13% no pregão pós divulgação e acumula queda de apenas 1,62% no segundo trimestre.
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