Paula Adamo Idoeta
O
aquecimento do mercado imobiliário em cidades como São Paulo e Rio, com aumento
nos preços e na oferta de imóveis, levanta preocupações de que exista uma
eventual "bolha imobiliária" em cidades brasileiras.
É
possível que haja uma sobrevalorização nos preços, que poderiam cair
repentinamente se a eventual bolha "estourar"?
Autoridades e
especialistas brasileiros descartam a hipótese, mas um economista americano que
previu a bolha imobiliária dos Estados Unidos acha preocupante o fato de os
preços dos imóveis terem dobrado nos últimos cinco anos nas maiores cidades
brasileiras.
E,
nos últimos 12 meses, o aumento dos preços do metro quadrado em 16 capitais foi
de em média 12,3%, segundo o índice da Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas
Econômicas) divulgado nesta quarta-feira. Em Curitiba, esse aumento chegou a
26,8%; em São Paulo e Rio, 13,7% e 15,3%, respectivamente.
Dados
do Sindicato da Habitação do Estado de São Paulo (Secovi-SP) apontam que o
número de novas unidades de imóveis cresceu 46% e as vendas subiram 63% neste
primeiro semestre no Estado.
"Não
é possível saber com certeza, mas suspeito que exista uma bolha imobiliária nas
maiores cidades do Brasil", disse o economista Robert Shiller, professor
da Universidade de Yale (Estados Unidos) e que previu a bolha imobiliária dos
EUA. Ele esteve em Campos do Jordão (SP) neste final de semana para um
congresso da BM&FBovespa.
"O
fato de os preços terem dobrado nos últimos cinco anos não soa bem. Se os
preços caírem, isso pode criar problemas", afirmou Shiller, fazendo a
ressalva de que não conhece a fundo a realidade brasileira.
Ele alega que, nos Estados Unidos, a
possibilidade de um imóvel perder valor era vista como inimaginável – e, no
entanto, foi isso o que aconteceu com a crise de 2008, fazendo com que muitos
proprietários vissem seu patrimônio se depreciar. Em muitos casos, hipotecas
passaram a superar o valor dos imóveis.
Brasil diferente
O caso do Brasil, no entanto, é
diferente dos EUA, argumenta Celso Petrucci, economista-chefe do Secovi-SP
(Sindicato das Empresas de Compra, Venda, Locação e Administração de Imóveis
Residenciais e Comerciais de São Paulo).
"Em conversas com Banco Central,
Caixa Econômica Federal e Abecip (Associação Brasileira de Crédito
Imobiliário), descartamos completamente a hipótese de uma bolha aqui", diz
Petrucci à BBC Brasil, alegando que o aumento de preços acompanhou o
crescimento econômico do país e, no momento, reflete os custos mais altos de
terreno e de mão de obra e matéria-prima.
"O que está acontecendo está
dentro da normalidade. Nos EUA, mais do que uma crise imobiliária, houve uma
crise de papéis (em referência à comercialização, no mercado financeiro, de
títulos de hipotecas que se revelaram 'podres', gerando a crise do subprime).
Aqui, a geração de emprego e renda continua positiva, o financiamento segue
abundante e barato e temos uma população economicamente ativa grande (apta a
comprar imóveis)."
Segundo ele, as taxas de
financiamento imobiliário não superam os 10,5% ao ano – pouco acima da atual
taxa básica (Selic), de 9%.
Petrucci argumenta que o sistema de
crédito imobiliário ainda tem "saúde" no Brasil, que o estoque de
imóveis não vendidos está equilibrado (uma redução desse estoque levou a
aumentos nos preços em 2010) e que os preços não devem subir mais aos níveis de
2009 e 2011.
O ex-presidente do Banco Central
Gustavo Franco declarou, também no congresso da BM&FBovespa, que é preciso
"ficar de olho" nos preços dos imóveis, mas que não vê perigos
imediatos de uma bolha imobiliária, porque a demanda por imóveis se mantém
consistente no país.
Comportamento anormal
Eduardo Zylberstajn, economista da
Fipe e coordenador do índice que mede os preços dos imóveis, admite que existe
uma preocupação com os preços.
"Não é normal que os preços
dobrem (em tão pouco tempo). É algo que precisa ser estudado e debatido",
diz à BBC Brasil.
"Mas tampouco era normal a
situação que vivemos nos anos 1980 e 1990, quando a hiperinflação corroeu
ativos e inibiu o crédito", agrega. Ou seja, seguindo esse raciocínio, o
boom imobiliário é decorrência de uma demanda reprimida por crédito e por
moradia.
"Minha impressão é de que os
preços estão muito ligados ao desempenho do mercado de trabalho, que esteve
muito aquecido, mas dá sinais de mudanças de rumo – com salários (crescendo em
ritmo) mais moderado", completa o economista. "Isso deve afetar a
demanda por imóveis."
Ele cita o caso do Rio, onde a Fipe
chegou a observar aumentos de preços de 50% em curto período de tempo. Esse
aumento baixou agora para a casa dos 15%, com leve tendência de queda.